Remuneração e Incentivos de Longo Prazo nos clubes de futebol

Por: Henri Barochel

Você sabia que os clubes de futebol remuneram seus dirigentes da mesma forma que as empresas? Estamos nos referindo aos chamados clubes-empresa, com capital aberto e listados nas Bolsas. Neste artigo analisamos dois clubes-empresa: o gigante Manchester United, listado na NYSE e LSE e o Celtic, tradicional clube da Escócia listado na LSE.

As informações encontradas nos portais de relações com investidores dos dois clubes nos permitem ter uma boa perspectiva da remuneração executiva praticada que não difere do que normalmente observamos nas empresas convencionais. O contexto de atuação dos clubes em que o resultado de um jogo pode colocar todo o trabalho de uma temporada em cheque, impactando diretamente a remuneração pode parecer algo inusitado, quando comparado ao contexto de negócios das empresas convencionais. Obviamente estas últimas também estão sujeitas a vários tipos de risco, que no entanto parecem ser mais controláveis do que um gol decisivo marcado aos 48 minutos do segundo tempo.

Antes de entrar nos detalhes da remuneração é interessante entender os principais aspectos da operação de um clube. Na tabela abaixo mostramos de forma detalhada, os resultados dos dois clubes do ano fiscal de 2019 encerrado em 30 junho de 2019. As informações estão em milhões de libras (GBP).

Futebol é, portanto, um negócio com três fontes de receita:

  • Venda de ingressos (match day);
  • Venda de produtos licenciados / merchandising e;
  • Quotas de televisão.

As despesas basicamente são as de pessoal incluindo salários de jogadores e funcionários (destacadas na DRE) e as ligadas a operação do clube e seu estádio de futebol. Como podemos notar os dois clubes apresentaram resultados positivos em 2019. O Celtic entregou um lucro menor em relação ao ano de 2018 e United reverteu um prejuízo considerável em 2018. Apesar disto, clubes de futebol não parecem ser uma boa opção de investimento, por conta do risco do negócio que está diretamente associado à conquista de títulos.

Os títulos nos campeonatos nacionais representam acesso as copas europeias que por sua vez garantem premiações adicionais, aumentam a legião de fãs e atraem mais patrocinadores que irão movimentar as demais linhas de receita. Se não há conquistas de campeonatos ou se as principais estrelas dos clubes não performam haverá volatilidade nas ações.

As despesas de pessoal (remuneração) representaram para o Celtic e para o United respectivamente 67% e 53% das receitas. A UEFA recomenda que este indicador não ultrapasse 70% de modo a garantir o chamado fair play financeiro. Despesas de pessoal mais altas indicam mais craques na equipe o que em tese aumentam as chances de títulos, desde que estes jogadores tenham boa performance e fiquem longo das lesões.

No caso dos Incentivos de Longo Prazo apuramos que o Celtic possui 2 programas bem semelhantes. O primeiro é dirigido ao CEO e o segundo é dirigido aos demais executivos. O ILP outorgado ao CEO é um bônus de longo prazo que cobre um ciclo de 3 anos. Para cada ano do ciclo são estabelecidas metas que se alcançadas, irão determinar uma premiação em dinheiro que será acumulada para pagamento no final do ciclo. As metas estão atreladas à classificação do clube para a fase de grupos da UEFA Champions League (UCL), à performance do financeira e operacional de clube e à geração de valor para os acionistas. O resultado do último ciclo 2016 – 2019 encerrado em junho de 2019 representou o pagamento de um ILP para o CEO de £2,370 milhões, além das demais verbas salariais. Durante este ciclo o Celtic de fato, conseguiu a classificação para a fase de grupos de UCL em 2 edições da competição, ficando de fora em 1 edição.

No caso do Manchester United que informa um valor anual de £10,729 milhões a título de remuneração para os executivos, o ILP é outorgado com o objetivo de atrair, reter e motivar determinados executivos, funcionários, ou membros do Conselho de Administração, por meio da concessão de planos baseado em ações ou em dinheiro que obedecem a regras de vesting. Diferentemente do Celtic não há cláusulas de performance no plano do ILP do United. A atual fase do United e o gráfico com a performance das ações, não parece acenar para ganhos muito promissores para os detentores de stock options ou restricted shares.

No milionário mundo do futebol, enquanto que jogadores faturam milhões independentemente de conquistar campeonatos, os executivos dos clubes empresa, podem receber uma parcela do bolo, sob a forma de incentivos de longo prazo desde que conquistem títulos.

Será que não está na hora de repensar a remuneração dos jogadores?