Remuneração executiva e incentivos de longo prazo pós pandemia

Por: Henri Barochel

Desde o início da pandemia do novo corona vírus, em fevereiro último, vimos o Ibovespa recuar para 73 mil pontos, representando uma queda de 40% em relação ao recorde histórico de 115 mil pontos observado em dezembro de 2019. Uma clara demonstração do impacto da pandemia nas empresas.

E qual será o impacto da pandemia na remuneração executiva e mais particularmente nos planos de Incentivos de Longo Prazo em vigor?

Para melhor entender esta questão vamos imaginar uma empresa cujas ações tenham exatamente o mesmo comportamento do Ibovespa. Consideraremos que a cada ano esta empresa outorga stock options com um prazo de vesting de 3 anos. Na tabela abaixo simulamos este cenário, atribuindo para cada outorga um strike price (preço de exercício assinalado em vermelho), bem como um valor da ação no momento do vesting (em preto bold). Ambos foram parametrizados pelo índice de fechamento nominal do Ibovespa no respectivo ano.

No alt text provided for this image

Fica fácil perceber que as outorgas exercidas a partir de 2016, trouxeram ganhos significativos. Já as outorgas com vesting até 2015, não proporcionaram ganhos. É importante notar que nesta simulação consideramos os exercícios das opções como eventos pontuais, pois é sabido que as janelas de exercício para este tipo de plano costumam ser mais longas.

Voltando ao presente, o que dizer em relação às outorgas de 2017, 2018 e 2019 que ainda não foram exercidas? Tudo dependerá de como a economia refletida pelo Ibovespa reagirá após o término da pandemia e a retomada.

De 2010 a 2019 o CAGR do Ibovespa foi de 5,3% a.a. Por outro lado, foram necessários apenas 2 anos para o índice sair dos atuais 73 mil pontos, patamar próximo ao observado em 2017 e crescer mais de 50% para alcançar os 115 mil pontos de 2019. Em qual das hipóteses você apostaria para o ciclo pós pandemia?

Assim como economistas e especialistas preveem que o mundo pós pandemia não será mais o mesmo em relação ao que nos acostumamos a viver até fevereiro de 2020, arrisco prever que a remuneração de executivos também deverá sofrer mudanças, principalmente se o isolamento social se estender por mais uns meses.

Na perspectiva dos acionistas e investidores temos observado uma forte desvalorização dos seus ativos acompanhada pela suspensão do pagamento de dividendos. É de se supor que de forma recíproca os executivos também sofram perdas na sua remuneração, a começar com as reduções no salário base.

Projetando o futuro, nos dias seguintes ao retorno, as empresas se verão frente a desafios equivalentes a um turnaround em que as estratégias estarão focadas em recuperar a solvência, em repensar os produtos e serviços, em reconquistar clientes e mercados, em adotar novas relações de trabalho, enfim em readequar os negócios para os novos tempos pós pandemia.

Neste cenário os salários voltarão, aos poucos, aos patamares anteriores. Os incentivos de curto prazo serão fortemente utilizados para remunerar as conquistas alcançadas e, possivelmente, o seu pagamento será diferido para preservar o caixa das empresas. Já os incentivos de longo prazo lastreados em ações, voltarão a ser outorgados, porém de forma mais comedida, com prazos mais longos de vesting, por conta do seu potencial de valorização no futuro. Neste sentido, a geração de valor das empresas será escrutinada pelos investidores considerando os fundamentos financeiros tradicionais, modulados pelos indicadores ESG (environmental, social and governance), adicionando-se uma quarta variável chamada Health que medirá o seu comprometimento com a Saúde. Isto definirá o futuro das empresas e da remuneração executiva.

E você em que cenários você aposta? Mande seus comentários para nós.

Um abraço, fique bem com saúde e até o próximo artigo.